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(9:17am)
Ser
sensível
nesse
mundo
requer
muita
coragem.
Muita. Todo dia.
sensível
nesse
mundo
requer
muita
coragem.
Muita. Todo dia.
— Ana Jácomo (via jardineiro-de-dores)
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(2:55pm)
Ela é absoluta e inteiramente divina, do alto da cabecinha ao pequenino pé.
— Oscar Wilde; O retrato de Dorian Gray
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(9:34am)
Lá fora caem lágrimas divinas que me convidam ao banho. Hesito e desdenho o choro, digo mentalmente que sinto muito, apenas; são suas criaturas, Deus. A leitura está prazerosa, a temperatura agradável, o cheiro dela ainda guardado na manga da camisa que me veste. Ótimo dia para nutrir o espírito, a mente, o corpo. Não, o corpo não. Esses dias tenho tido uma certa aversão a essa parte pobre que nos prende. Hoje, noutros acabo por glorificá-lo pela importância e privilégio seus de guardar o mais bonito de nós longe dos olhares frívolos. Como eu seria infeliz se todos que me vissem me descobrissem! Morreríamos, todos. Morreríamos por falta de ser aquele que nós mesmos, não raramente, desconhecemos. “O essencial é invisível aos olhos”, não é assim que diz o poeta? Então. Caminha bonito justamente quem tem algo que os outros não têm, nem suspeitam. Ah, sim, o caminhar dela é exemplo vivo, latente. Lindos quadris remexendo, lindas pernas claras hora lá hora cá…
O choro divino não cessa. A rua está com todos os barulhos de uma manhã em que os deuses, o deus, os Deuses, o Deus, choram, chora: o som da correria das crianças, da bola de futebol batendo nos portões alheios, do pinga-pinga das lágrimas, da gargalhada da garota que ri do garoto que caiu numa poça na esquina da Planaltina com a Oscar Romero…
E meu telefone não toca, e o sms não chega. Da cozinha vem o cheiro da comida-feita-pela-mamãe.
Do nublado do céu o desejo de agarrar o mundo com força e despi-lo de seus mistérios. E sobraria o quê? O que importa e o que é bonito, sem medo das nuanças postas por forças exteriores quase irremediáveis, incontroláveis, pretas ou claras, boas ou ruins – por que algumas delas transvestem as roupas do bem, entende? Não, não veio de mim, é Nietzsche, eu jamais “descobriria” isso, nem mesmo queria ter tido o desprazer de “descobrir”. E o que importa? O que é bonito? E importa a quem? E é bonito aos olhos de quem? Ah, não, agora não é hora de tentar me descobrir.
Eu poderia forçar a lembrança da noite de ontem e me fazer feliz até quando ela durasse. A noite de ontem não, a lembrança. Até quando a lembrança da noite de ontem durasse, para me explicar melhor. Não tinha lua cheia, nem o frio do inverno europeu para que nos aquecêssemos um com o corpo do outro, mas tinha tua presença. Linda, maravilhosa, perfeita e branca, vestida com uma blusa escura, nova, e shortinho jeans. Pensei a respeito das noivas, do vestido das noivas. Desnecessário a ti. Eu te quero entrando na igreja com aquela blusa e aquele short, eu quero que você me diga sim com aquele rosto meigo de sono que tem dez segundos após acordar. O adorno teu é você mesmo. Que inveja às outras mulheres desse mundo que carregam além do seu peso o peso das joias e maquiagens e afins que precisam jorrar sobre si. A ti, basta teu cheiro. Nem precisa ser completo, apenas o prelúdio dele, apenas aquele instante em que meu olfato se aproxima e quase pega a essência da tua pele, quase porque foi no exato momento em que você se movimentou e tirou minhas narinas das tuas entranhas. Sem aquele movimento eu teria inspirado todo teu perfume e feito de mim um frasco. E faria, faria sim.
E o choro divino, sim, não cessa. Amanhã, telejornais nos informarão que o choro fez chorar dezenas, centenas de famílias, agora desabrigadas e encaminhadas às igrejas do bairro. Hoje é sábado de luto pela morte da noite de ontem, pelo choro divino, pelo choro que fez chorar o choro divino. Hoje é sábado. Não luto.
O choro divino não cessa. A rua está com todos os barulhos de uma manhã em que os deuses, o deus, os Deuses, o Deus, choram, chora: o som da correria das crianças, da bola de futebol batendo nos portões alheios, do pinga-pinga das lágrimas, da gargalhada da garota que ri do garoto que caiu numa poça na esquina da Planaltina com a Oscar Romero…
E meu telefone não toca, e o sms não chega. Da cozinha vem o cheiro da comida-feita-pela-mamãe.
Do nublado do céu o desejo de agarrar o mundo com força e despi-lo de seus mistérios. E sobraria o quê? O que importa e o que é bonito, sem medo das nuanças postas por forças exteriores quase irremediáveis, incontroláveis, pretas ou claras, boas ou ruins – por que algumas delas transvestem as roupas do bem, entende? Não, não veio de mim, é Nietzsche, eu jamais “descobriria” isso, nem mesmo queria ter tido o desprazer de “descobrir”. E o que importa? O que é bonito? E importa a quem? E é bonito aos olhos de quem? Ah, não, agora não é hora de tentar me descobrir.
Eu poderia forçar a lembrança da noite de ontem e me fazer feliz até quando ela durasse. A noite de ontem não, a lembrança. Até quando a lembrança da noite de ontem durasse, para me explicar melhor. Não tinha lua cheia, nem o frio do inverno europeu para que nos aquecêssemos um com o corpo do outro, mas tinha tua presença. Linda, maravilhosa, perfeita e branca, vestida com uma blusa escura, nova, e shortinho jeans. Pensei a respeito das noivas, do vestido das noivas. Desnecessário a ti. Eu te quero entrando na igreja com aquela blusa e aquele short, eu quero que você me diga sim com aquele rosto meigo de sono que tem dez segundos após acordar. O adorno teu é você mesmo. Que inveja às outras mulheres desse mundo que carregam além do seu peso o peso das joias e maquiagens e afins que precisam jorrar sobre si. A ti, basta teu cheiro. Nem precisa ser completo, apenas o prelúdio dele, apenas aquele instante em que meu olfato se aproxima e quase pega a essência da tua pele, quase porque foi no exato momento em que você se movimentou e tirou minhas narinas das tuas entranhas. Sem aquele movimento eu teria inspirado todo teu perfume e feito de mim um frasco. E faria, faria sim.
E o choro divino, sim, não cessa. Amanhã, telejornais nos informarão que o choro fez chorar dezenas, centenas de famílias, agora desabrigadas e encaminhadas às igrejas do bairro. Hoje é sábado de luto pela morte da noite de ontem, pelo choro divino, pelo choro que fez chorar o choro divino. Hoje é sábado. Não luto.
— Jackson Teles. Sábado não luto
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(6:51pm)
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
— Por não estarem distraídos, Clarice Lispector. (via amei-xas)
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(6:28pm)
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande, é a sua sensibilidade sem tamanho.
— Martha Medeiros. (via queridaeu)